domingo, 3 de julho de 2011
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Caio F. ( para ler ao som de London London)
"Sem data
Claro, o dia de amanhã cuidará do dia de amanhã e tudo chegará no tempo exato. Mas e o dia de hoje?
Só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto.
2 de março
Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toq
ues e .ignoro todas as tentativas de aproximação. Tenho vontade de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão".
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão".
[ Caio Fernando Abreu ]

Trecho do conto Lixo e Purpurina do livro Ovelhas Negras. O conto é uma espécie de diário literário da estadia do autor em Londres. Um conto fragmentado onde a unidade maior é do sentimento interior de inadequação, do sentimento de eterno estrangeiro.
Música: London London/Interprete: Cibelle
Download:
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Ao som de "Go or go ahead"
Não confunda os pés por entre os rastros.
Sei por onde cheguei.
Difícil é encarar quando a estrada se estende inteira
e nós: à parte - recolhendo pegadas,
estudando atalhos, pedindo carona a algum vento sensato.
Perdão, por nada se ter a perdoar.
A estrada que não nos cabia.
Agora, um p'ra cada margem.
Quando me estendia a mão era menor a minha confusão.
Quando me estendia a mão era menor a própria estrada
Quando me estendia a mão não doía tanto assim a caminhada
de nós a parte, recolhendo pegadas,
estudando atalhos, pedindo carona a algum vento solidário
Calculando gentilezas para cobrir a dor alheia que se imagina responsável
mas no fundo tão minha como um espelho evitado
Ir e sempre ir
ir sempre, e...
E o que se faz com uma estrada abandonada? Onde se guarda?
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Lobos?
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
Hilda Hilst
Aflição de ser. . .
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Hilda Hilst
domingo, 17 de abril de 2011
"Cartas a um jovem poeta" - Rilke
"O senhor me pergunta se os seus versos são bons. (...) Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isso: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever?"(...)
"E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos.(...) Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade."
domingo, 20 de março de 2011
Do mar, distâncias e braçadas

e eis que estendo o braço
e eis cada braçada
e eis nenhuma fadiga,
dali da baia ninguém se afligia,
de todos os santos, de todos os homens, de todos os mortos
afligia ninguém o mar e seus afogados
e eis a distância
e eis nenhuma chegada
e eis que estendo o braço
e eis cada braçada
do meio dia meia vida melodia (de meus músculos)
em face d'água agitada
e eis que estendo o braço
o menos cansado
e eis a distância que trazia
consigo, debaixo,
fragatas paradas lembram algum homem
e sua medida desde a baía
de todos os santos, todos os homens, todos os mortos,
e eis o mar que ninguém avistava,
que ali na baía violentava a sua ressaca
os afogados, os vi por si,
que dali da baía ninguém,
de boca aberta,
ninguém, ninguém, meu deus, ninguém respirava.
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