quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Dois poemas para Desuso

Chema Madoz















I

Quero um desuso
De mim de ti

Quero o abandono
do corpo em troca
de outro corpo
que meu que seu
que outro

- a vida é uma corda que vibra -

E lhe somos a guiza precariamente:

somos dois arames partidos,
atados por Força
do desejo
de uma canção uníssona


II

A soma de Dois poços.

Sejamos isto para nosso desuso:
a soma de dois poços.

( que se invente a sede
a corda a engrenagem
a força o braço a estiagem
os retirantes
e o fundo de mar
de se sitiar enganos )

Jack Borandá

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Menino ( variações )

I

"Eu quero ver o sol se pôr"
que maldade eu pensei
- seis anos eu tinha .

O mais correto, pensei -
minto agora a sabedoria que eu tinha -, seria:
Eu quero ver o pôr se Sol
A cada dia.

II

Eu quero ver o sol se pôr
da cor do pêssego.

Que besteira!, pensariam.

Que besteira digo eu.

Se é para se pôr as coisas
que seja então pela minha cartilha.

III

As coisas despostas vão para onde?
O amor, a figurinha, o avô morto, o cachorro perdido,
tudo que se deitou comigo e traiu o acordo entre umbigos,
sumidos?

Mania de sol, mania de rei: se pavoneia bonito e se põe escondido
onde o horizonte é mais forte.

IV

Eu quero ver o pôr se Sol
a cada esquina.

Jack Borandá


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Nú de cada retina

Capa do disco "Todos os Olhos", de Tom Zé


I

Quando olhares novamente no espelho
Miras não o que se repete em toda íris,
mas a falha que deus não calculou -
e você nem procurou - ali por trás -
A sua infinita beleza.

II

As insônias, o cansaço, o vestígio do pó,
uns ciscos do vento, uns ciscos da lida,
o soco não revidado da vida (o que tinha de lindo -
o soco não revidado da vida)...

o  nú de cada retina.

III

     folha caída
- sem monte, nem oliveira -
     um versículo perdido,

     um colírio que cai
no nublado que fica



Jack Borandá

domingo, 30 de setembro de 2012

Tal logrador


Outras Palavras

Tableau No. 2/Composition No. VII, 1913 - Piet Mondrian.
I

A curva na rua
não é mais incerta que a curva
do teu silêncio:
A incerteza em atravessá-los, é o mesmo.

Talvez pelo medo
do que lá seja:


II


(sina vera é aquela que arrombe a sorte e me mostre
desnortes - que os nortes caducos não se prestam à vida )

III


Mas o Silêncio, atravessá-lo,
como, se quando diante: já ante e finda?
É aquela a quem lhe procuro os olhos.
Mas os seus olhos é justamente aquilo o que me evita.


IV


Palavras não se prestam a Palavra!
E são tantas palavras, tantas palavras...

E a curva do silêncio bem à esquina...

.

Jack Borandá

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Fernando Pessoa em doses rápidas

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que eu não sei.

***

Leve vem a onda leve
Que se estende a adormecer,
Breve vem a onda breve
Que nos ensina a esquecer.

***

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

Fernando Pessoa