quinta-feira, 4 de julho de 2013

Amo a voz da tempestade


Amo a voz da tempestade,
Porque agita o coração...
E o espírito inflamado
Abre as asas no trovão!

A minh'alma se devora
Na vida morta e tranqüila...
Quero sentir emoções,
Ver o raio que vacila!

Enquanto as raças medrosas
Banham de prantos o chão,
Eu quero erguer-me na treva,
Saudar glorioso trovão!
(...)


Álvares de Azevedo

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A casa abandonada


Vai doer mas depois vai passar.

Um lance de escada, uma casa sem sacada,
janelas às cegas, paisagens lacradas.
O mar, em frente, aterrado.
A luz da manhã, quando vara a fresta, dentro,
já é meia noite, já é madrugada.
Que o galo não anuncia por gentileza, compaixão
condoída a quem dentro ainda se resigna.

Endereço rua da guia, onde cegos
de prontidão esperam por outra sina.

Só há o mar secular
A sacada, velha falásia, teu fadado mirante.
O lance de escada
- vai doer... vai passar...-
e a distância:
tão aquém a seus pés e, ao mesmo tempo,
algo a se alastrar além a sombra humilde dos seus pés.

Jack Borandá




terça-feira, 5 de março de 2013

O poema do filho

A volta do filho pródigo (excerto) - Rembrandt

Filho trai a casa
na hora da partida.
Mas o parto já foi em si
O primeiro ensinamento
de partida.

Jack Borandá


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Dois poemas para Desuso

Chema Madoz















I

Quero um desuso
De mim de ti

Quero o abandono
do corpo em troca
de outro corpo
que meu que seu
que outro

- a vida é uma corda que vibra -

E lhe somos a guiza precariamente:

somos dois arames partidos,
atados por Força
do desejo
de uma canção uníssona


II

A soma de Dois poços.

Sejamos isto para nosso desuso:
a soma de dois poços.

( que se invente a sede
a corda a engrenagem
a força o braço a estiagem
os retirantes
e o fundo de mar
de se sitiar enganos )

Jack Borandá

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Menino ( variações )

I

"Eu quero ver o sol se pôr"
que maldade eu pensei
- seis anos eu tinha .

O mais correto, pensei -
minto agora a sabedoria que eu tinha -, seria:
Eu quero ver o pôr se Sol
A cada dia.

II

Eu quero ver o sol se pôr
da cor do pêssego.

Que besteira!, pensariam.

Que besteira digo eu.

Se é para se pôr as coisas
que seja então pela minha cartilha.

III

As coisas despostas vão para onde?
O amor, a figurinha, o avô morto, o cachorro perdido,
tudo que se deitou comigo e traiu o acordo entre umbigos,
sumidos?

Mania de sol, mania de rei: se pavoneia bonito e se põe escondido
onde o horizonte é mais forte.

IV

Eu quero ver o pôr se Sol
a cada esquina.

Jack Borandá


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Nú de cada retina

Capa do disco "Todos os Olhos", de Tom Zé


I

Quando olhares novamente no espelho
Miras não o que se repete em toda íris,
mas a falha que deus não calculou -
e você nem procurou - ali por trás -
A sua infinita beleza.

II

As insônias, o cansaço, o vestígio do pó,
uns ciscos do vento, uns ciscos da lida,
o soco não revidado da vida (o que tinha de lindo -
o soco não revidado da vida)...

o  nú de cada retina.

III

     folha caída
- sem monte, nem oliveira -
     um versículo perdido,

     um colírio que cai
no nublado que fica



Jack Borandá