Ele quis um espaço.
O homem sente a necessidade de um espaço.
Sempre perambulando.
Só assim pra aplacar a dor,
gado pastando no peito.
Exigiu, então, bom culpado,
o cuidado o maltrato
pelo que deixou inflamado
com seu beijo, mucosa áspera,
cano de escape.
Me quis pedaço
nem largo nem fundo
"porque a medida do homem
não se mede em latifúndio"
- dizia;
Me quis pedaço
algo mais verdadeiro:
palpável e ordinário;
achado, acaso, alheio:
como a pilha velha achada,
sem idéia, na verdade, do que esta lhe valeria -
que sol portátil esta noite acenderia?
Ou então como uma concha marinha
pelo chão,ou ao fundo
de uma escrivaninha
que, ao ouvido, curioso se alinha:
onda por onda, em qual mar nos lançaria?
Um espaço assim, media.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
(sem título)
![]() |
| Man Ray |
a solidão como périplo,
um dia - venturas, monturos, mitos, milhas -
termina?
II
minha alma é um mapa diáfano, vago, muito vago
se boa a sorte desse dia, se forte o vento ao leste dessa agonia,
se não falível a fé nessas carrancas -
ah! - é quando tudo se.
Bem antes que.
Me salve dos.
:naquele se perdeu meu pai; naquele outro, errou o meu capote,
o do meio, desviou o meu cargueiro,
entremeios, estreita, espreito : a corrente do Forte.
Por dentro, um coração fraco.
e na enseada, minhas fragatas paradas
nas mãos, chumbo branco,
o meu
mapa diáfano
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Amo a voz da tempestade
Amo a voz da tempestade,
Porque agita o coração...
E o espírito inflamado
Abre as asas no trovão!
A minh'alma se devora
Na vida morta e tranqüila...
Quero sentir emoções,
Ver o raio que vacila!
Enquanto as raças medrosas
Banham de prantos o chão,
Eu quero erguer-me na treva,
Saudar glorioso trovão!
(...)
Álvares de Azevedo
quarta-feira, 3 de julho de 2013
A casa abandonada
Vai doer mas depois vai passar.
Um lance de escada, uma casa sem sacada,
janelas às cegas, paisagens lacradas.
O mar, em frente, aterrado.
A luz da manhã, quando vara a fresta, dentro,
já é meia noite, já é madrugada.
Que o galo não anuncia por gentileza, compaixão
condoída a quem dentro ainda se resigna.
Endereço rua da guia, onde cegos
de prontidão esperam por outra sina.
Só há o mar secular
A sacada, velha falásia, teu fadado mirante.
O lance de escada
- vai doer... vai passar...-
e a distância:
tão aquém a seus pés e, ao mesmo tempo,
algo a se alastrar além a sombra humilde dos seus pés.
Jack Borandá
terça-feira, 5 de março de 2013
O poema do filho
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Dois poemas para Desuso
![]() |
| Chema Madoz |
I
Quero um desuso
De mim de ti
Quero o abandono
do corpo em troca
de outro corpo
que meu que seu
que outro
- a vida é uma corda que vibra -
E lhe somos a guiza precariamente:
somos dois arames partidos,
atados por Força
do desejo
de uma canção uníssona
II
A soma de Dois poços.
Sejamos isto para nosso desuso:
a soma de dois poços.
( que se invente a sede
a corda a engrenagem
a força o braço a estiagem
os retirantes
e o fundo de mar
de se sitiar enganos )
Jack Borandá
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Menino ( variações )
I
"Eu quero ver o sol se pôr"
que maldade eu pensei
- seis anos eu tinha .
O mais correto, pensei -
minto agora a sabedoria que eu tinha -, seria:
Eu quero ver o pôr se Sol
A cada dia.
II
Eu quero ver o sol se pôr
da cor do pêssego.
Que besteira!, pensariam.
Que besteira digo eu.
Se é para se pôr as coisas
que seja então pela minha cartilha.
III
As coisas despostas vão para onde?
O amor, a figurinha, o avô morto, o cachorro perdido,
tudo que se deitou comigo e traiu o acordo entre umbigos,
sumidos?
Mania de sol, mania de rei: se pavoneia bonito e se põe escondido
onde o horizonte é mais forte.
IV
Eu quero ver o pôr se Sol
a cada esquina.
Jack Borandá
"Eu quero ver o sol se pôr"
que maldade eu pensei
- seis anos eu tinha .
O mais correto, pensei -
minto agora a sabedoria que eu tinha -, seria:
Eu quero ver o pôr se Sol
A cada dia.
II
Eu quero ver o sol se pôr
da cor do pêssego.
Que besteira!, pensariam.
Que besteira digo eu.
Se é para se pôr as coisas
que seja então pela minha cartilha.
III
As coisas despostas vão para onde?
O amor, a figurinha, o avô morto, o cachorro perdido,
tudo que se deitou comigo e traiu o acordo entre umbigos,
sumidos?
Mania de sol, mania de rei: se pavoneia bonito e se põe escondido
onde o horizonte é mais forte.
IV
Eu quero ver o pôr se Sol
a cada esquina.
Jack Borandá
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