quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Menino ( variações )

I

"Eu quero ver o sol se pôr"
que maldade eu pensei
- seis anos eu tinha .

O mais correto, pensei -
minto agora a sabedoria que eu tinha -, seria:
Eu quero ver o pôr se Sol
A cada dia.

II

Eu quero ver o sol se pôr
da cor do pêssego.

Que besteira!, pensariam.

Que besteira digo eu.

Se é para se pôr as coisas
que seja então pela minha cartilha.

III

As coisas despostas vão para onde?
O amor, a figurinha, o avô morto, o cachorro perdido,
tudo que se deitou comigo e traiu o acordo entre umbigos,
sumidos?

Mania de sol, mania de rei: se pavoneia bonito e se põe escondido
onde o horizonte é mais forte.

IV

Eu quero ver o pôr se Sol
a cada esquina.

Jack Borandá


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Nú de cada retina

Capa do disco "Todos os Olhos", de Tom Zé


I

Quando olhas para os olhos dele
Miras não o azul bonito da íris,
mas o vermelho manchado.
A falha que deus não calculou
por que a falha é o divino de um humano.
A sua infinita beleza. Mirava -
a infinita beleza às manchas daquela íris.

II

As insônias, o cansaço, o vestígio do pó,
uns traços sanguíneos,
uns ciscos do vento, uns ciscos da lida,
o soco não revidado da vida (o que tinha de lindo -
o soco não revidado da vida)...
o  nú de cada retina.

III

     folha caída
- sem monte, nem oliveira -
     um versículo perdido,

     um colírio que cai
no nublado que fica



Jack Borandá

domingo, 30 de setembro de 2012

Tal logrador


Outras Palavras

Tableau No. 2/Composition No. VII, 1913 - Piet Mondrian.
I

A curva na rua
não é mais incerta que a curva
do teu silêncio:
A incerteza em atravessá-los, é o mesmo.

Talvez pelo medo
do que lá seja:


II


(sina vera é aquela que arrombe a sorte e me mostre
desnortes - que os nortes caducos não se prestam à vida )

III


Mas o Silêncio, atravessá-lo,
como, se quando diante: já ante e finda?
É aquela a quem lhe procuro os olhos.
Mas os seus olhos é justamente aquilo o que me evita.


IV


Palavras não se prestam a Palavra!
E são tantas palavras, tantas palavras...

E a curva do silêncio bem à esquina...

.

Jack Borandá

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Fernando Pessoa em doses rápidas

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que eu não sei.

***

Leve vem a onda leve
Que se estende a adormecer,
Breve vem a onda breve
Que nos ensina a esquecer.

***

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

Fernando Pessoa

terça-feira, 10 de julho de 2012

Nome é como rua


Cartie-Bresson


O nome é
a soma de todos os becos

por que se te digo o meu
não julgues que um único caminho me alcança
não julgues ser este nome a estrada ladrilhada
á minha graça e fama. 
Não condiz com os tantos codinomes, os tanto becos,
que, à margem plácida
do meu nada, grito à Hosana, ás alturas.

O nome é
a soma de todos os guetos

por que se me diz o teu,
se assim te chamas,
quantas pichações reclamam
uma outra verdade a tua cara, quanto vandalismo
te faz carícia, te faz mais verdade
nessas tuas paredes descascadas, de reboco falso.

Nome
é como rua

Se te digo outro, todos,
corres o risco de seguir por becos
tortuosos
ora em penumbra,
ora iluminado,

E nunca se sabe se se pode avançar seguro

pelo nome:
soma de todos os becos.


. . .


. . .


. . .


Mesmo assim, chama-se: chama.


Jack Borandá



Crônica - Caio Fernando Abreu

Postagem para a amiga Marcela Leite
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Meu nome é Caio F. 
Moro no segundo andar, 
mas nunca encontrei você na escada.


Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.

Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para falar, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, o ver, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão.
No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?

(Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.)

Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus.

Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço. Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas caírem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

Crônica publicada no jornal "Estadão", Caderno 2 de 29 de julho de 1987

Água-nova


Jan Saudek
I

Unge a testa 
com a água-nova da lágrima que chorasse 
sem alegria nem dor na visita à vida.


II

Tuas verdades?
Não evitas: brinca de cabra-cega.

Ao que esbarrar, desdenha o mistério e grita: salve-todos! 


III

Evitas tanto tuas verdades...

Se veste humildemente com a camisa que lhe cabe
enquanto, por ventura, tentas vencer-se, se debate,
a desembaraçar-se ainda mais na nudez ...

... a nudez que pudeste. Longe, distante
ainda da nudez que te excede.

Jack Borandá

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Na areia do além mar

 Jack Borandá e Edilma Maria


Não me conheces verdadeiramente, mas estou em tuas preces solares/invernia à beira mar. Não me conheces, mas me enfeitas com flores nativas como se eu fosse teu encanto por iemanjá. Não me conheces, mas eu teu ser sou o teu mundo desconhecido e evoluído que espraias em ondas cinzas de inverno.

O sentimento de liberdade que está em mim te alcança e eu entro em teu caminho como se fosse um segredo de nós dois e te envolvo como envolve o sal à carne e te salgo de desejo salobro; de fé e medo; de esperança e desejo. Então pairo em teu ser e adentro teus caminhos como se estivéssemos em uma pista de dança na areia do além mar e te convido, com o corpo suado de desejo, a dançar um tango nas tranças cálidas das águas turvas e descubro em ti o segredo do ardor em cada ferida encoberta pelas areias brancas do arrastão da preamar e sinto em minha'lma o repuxo que te puxa ao fundo do mar aberto e, pasmo, ajo como um refluxo em tua vida e te encanto como se fosse eu a tua glória à Iemanjá e me calo.

Olha, não me conheces, mas habito em tuas preces e em teu corpo frágil e suado de espuma branca que se espraia para além do mar aberto que teus pés alcançam.

A co-autora Edilma Maria mantém o blog http://ogatoporlebre.blogspot.com.br onde publica cativamente diversos textos de sua autoria. Confiram!